quinta-feira, 15 de setembro de 2011

carta final.

Desculpa, a água está no fogo e você deve ter se acordado em função do barulho que a chaleira faz. Sei que chamou meu nome algumas vezes, mas não estou em casa amor, e não irei voltar. Já esvaziei as gavetas, e levei meus pertences embora. As fotos ainda permanecem aqui, faça o que quiser com elas. Veja bem, se levante da cama, leia isto a caminho da cozinha. Fiz tua comida predileta para o almoço, está na terceira prateleira. Tenha a decência de fazer o café. Lave os lençóis, apague meu cheiro. Não quero ter a mínima ideia de que algo relativo a mim te atormenta. Sei que estou sendo dura, mas já aguentei mais do que podia, meu amor. Sim a culpa também foi minha, mas já não éramos mais os mesmo jovens apaixonados fazia algum tempo. Nossos beijos antes tão cheios, agora tão opacos. Notei teus olhos abertos e percebi que era o final. Vi o jeito que olhastes para a ruiva e lembrei do jeito que costumávas me mirar, é, tudo mudou. (...) Mas amor, você é tão forte! Sempre foi o meu protetor, meu anjo da guarda, sei que ficarás bem. Por favor, não tente cozinhar, contrate a empregada que sempre quisestes. Nós dois sabemos muito bem o que acontece quando mexes com farinha, ou qualquer coisa que se espalhe e manche facilmente. Aliás, me deves, e nunca irás pagar, uma blusa nova, e um sutiã também. Você sempre criativo demais com especiarias. Enfim, amor, sei que darás falta de tua camisa azul, pois aviso que levei-a comigo, e quanto ao resto de tuas roupas estão todas passadas, costuradas e em seu devido lugar. Desde que decidistes beber para preencher a falta de amor, tive muito tempo livre. Em pensar que antes não desgrudávamos! Amor, por favor, não chora. Eu sei que vai doer, em mim tem doído bastante, mas eu nunca mais suportaria saber que estivestes chorando e a culpa é minha. Se quiseres saber um segredo, eu estava acordada naquela noite em que chegastes depois das três da manhã. Eu o ouvi dizer que me amava e não entendia o que acontecia. Eu ouvi teu choro baixo, manso. Desculpa, eu também não entendo. Acho que o que nos matou foi o silêncio, o tempo, o egoísmo. Nunca soubemos abrir mão do que não era importante por puro orgulho. Mas principalmente a distância que permitimos se alastrar por nós. Estávamos na mesma cama, na mesma casa, podíamos nos tocar, mas não nos sentir. (...) Acho que estou levemente alta, e você provavelmente dará falta de algumas bebidas em seu armário. De alguns bombons na caixa, e de algumas lembranças. Por favor amor, não pense que eu não lhe amo, na verdade é porque lhe amo que devo ir, é porque lhe amo que o deixo saber a verdade. Faça a barba, estás precisando. Quando a deixas crescer, simplesmente pareces sujo, indecente. Não tente me achar amor, não tente me ligar. Fique com tudo, o que realmente me importava já levei… Pena que não pude te levar. (...) Naquela última noite, pelo que brigamos mesmo? Não importa… Só me desculpa, amor? Garanto que não tinha razão, e tudo que lhe falei foi da boca para fora… Chegastes a te perguntar por que deixei as fotos? É para não te esqueceres de mim. Levei tua camisa favorita, que veste tão bem em mim como pijama, para me lembrar de ti. Engraçado não? Nunca falamos que nos amávamos, e agora parece tão fácil… Mas você sempre soube não? Porque eu bem sei que cada vez que me beijavas, podias ouvir a falta de respiração, e sentir o desejo por mais. Ah amor, fui demitida. Não tive coragem de te falar, em função de meus motivos. Passei uma certa tarde trancada em casa, chorando, tentando encontrar um lugar seguro, querendo teus braços, mas você não estava lá. Não, pelo contrário, quando tentei te ligar, automaticamente dissestes que estava ocupado e depois conversaríamos. Se ao menos tivestes me escutado, não teria que redigir isto agora. Estou meio perdida, mas acho que posso me virar bem. Amor, sentirei tanto tua falta… Mas acho que é somente porque me acostumei com a tua presença. Acho que terei de me acostumar a acordar sozinha, até achar algum outro homem, que seja metade do que um dia fostes para mim. E sim, eu sei que soo muito contraditória, mas acho que ainda há algum amor, que sobreviveu a todos os machucados, mágoas. Acho que ele ainda está vivo em ti também. Espero que quando ela se deitar no meu lado da cama você se lembre de mim, e de tudo que já fizemos aí. Sei que esperas que eu lembre de ti quando estiver com ele também, e irei. Sabes muito bem como adoro teu cheiro, portanto ele cheirará igual. Espero que quando me avistares na rua, um dia desses, sejas maduro o suficiente para me cumprimentar, ou apenas sorrir. Aliás, nunca deixe de sorrir, teu sorriso é lindo, fácil de se apaixonar por. Sabes bem, que mereces melhor do que eu, melhor do que o que tínhamos. E se eu derramar um lágrima ao te ver, não tente secá-la. Se vou é definitivo, por mais que eu queira ficar, já lhe disse, a dor é insuportável. E se procurares por um culpado, pode me culpar, pode falar mal de mim para teus amigos idiotas. Aliás, eu os odeio. (...) Eu acho que.. tenho de me despedir agora, já que não és mais meu. Engraçado como quero que me encontres, me pegue pelos pulsos e diga que eu e você ainda podemos ser nós, que os machucados podem ser curados. Mais.. mas não dá, eu sei. Eu não consigo mais ficar perto de ti, te ver, porque meu coração está cansado de fingir que te ama e não te ama.
Ah amor, desculpa te acordar deste jeito abrupto. Espero que me entenda, apesar de tantas entrelinhas e segundas intenções. Espero que não deixe o café esfriar enquanto lê, e que não o torne agridoce em função de tuas lágrimas. Não se torne azedo, cético, tens a alma mais linda que já vi. Espero não tê-lo destruído, como tudo que toco. Desculpa por ter usado todo o açúcar e ter deixado somente o adoçante. Desculpa pelo silêncio, dor, mesmice, pouco que te dei. Desculpa pela amargura e já não ser mais a jovem pela qual te apaixonastes. Aquela sabe? Infantil, sonhadora, apaixonada, acho que morri. Enfim, me desculpe. Isto é adeus, eu estou lhe deixando, e me deixando. Amor, eu.. esquece.